terça-feira

“Ontem de manhã, descobri que me enganaram. Eu – quer dizer, até ontem de manhã – tinha a mania de repartir o cabelo para o lado esquerdo. Às vezes me apaixonava por donas de casa e vislumbrava um futuro de churrascarias caríssimas aos domingos. Não cogitava em chupar cus. Daí a importância do episódio do poço: joguei meu primeiro cadáver lá dentro: eu mesmo. Isso chega a ser óbvio. Do mesmo jeito – óbvio, como o desejo do suicídio – a gente também tem que saber morrer e tem que saber se matar e enterrar a si mesmo e, sobretudo, matar e enterrar a quem mais se amou (mesmo que esse amor tenha sido reconhecidamente um furioso equívoco): amor por demais; portanto vivido, enganado e matado, nunca morto demais.”


Marcelo Mirisola, 'Azul do filho morto'
(e eu me sinto, de repente, com 173 páginas estranhas no rosto)
e agora só enxergo através delas.

sexta-feira

quinta-feira

Vou meter. Vou me meter em alguma coisa, crochê, costura, putaria das grandes. Vou abrir com as sete chaves seja lá o que for que ainda esteja trancado. Todo sábado de manhã aula de dança tcheca e suco natural. Que indecência. Que tolerância. Tô de parabéns. Tô de pára-quedas. Tem que saber a hora de parar um texto, tem que saber a hora de tirar a garota pra dançar, tem que saber a hora toda hora.

Como diz Bataille: "é preciso ser Deus para morrer".
- olha bem pra você.

sexta-feira



A MORTE DE SYLVIA

para Sylvia Plath





Ó Sylvia, Sylvia,

com um féretro de pedras e colheres,

com dois filhos, dois meteoros

vagando livres numa pequena sala de jogos
com a tua boca contra o lençol,

na viga do teto, na silenciosa prece


(Sylvia, Sylvia para onde foste depois da tua carta de Devonshire sobre cultivar batatas e criar abelhas?)
por que causa te ergueste, e como precisamente te afundaste?
Ladra

– como se rastejou


rastejou sozinha

para a morte que eu queria tanto, e há tanto tempo,


a morte que ambas dizíamos ter vencido,

a mesma que carregamos em nossos peitos mirrados,


a mesma que conversávamos frequentemente,

que emborcávamos três dos mais secos martinis de Boston,
a morte que falava de analistas e de curas,

a morte que falava como noivas entre tramas,

a morte que nós bebíamos,

os motivos, e a taciturna realidade?


(Em Boston os moribundos viajam em táxis, sim outra vez a morte, viaja para casa com nossa criança.)


Ó Sylvia, lembro do sonolento baterista

que batia em nossos olhos com uma velha história,


como queríamos deixá-lo vir

como um sádico ou uma fada de Nova Iorque
para fazer seu trabalho,

uma necessidade, uma janela numa parede ou num berço,


e desde então ele esperou,

sob nossos corações, nossas despensas,


e vejo agora que,

ano após ano, velhos suicídios


e sinto ante a notícia da tua morte

um horrível sabor, como sal,


(E eu,

eu também.

E agora, Sylvia, tu outra vez com a morte outra vez,

viaja pra casa

com nossa criança.)


e digo apenas,

estendendo os braços para esse lugar de pedra,


o que é a tua morte,

senão uma antiga possessão,


uma verruga que caiu

de um dos teus poemas?


(Ó amiga, enquanto a lua é má, e o rei parte, e a rainha perde a razão, o bêbado deve cantar!)


Ó mãezinha,

também tu!

Ó estranha duquesa!

Ó coisa loira!


Anne Sexton, 17 de Fevereiro de 1963

quarta-feira

Isso é um texto magoado, manchado, sujo. Esperando dias pra sair da melhor maneira possível, mas como vem de mim, não existe ‘melhor maneira possível’. Por que eu sou um eterno probleminha, sempre na beirada de virar um problemão. Sempre no extremo do estorvo, culpa das minhas psicoses (Já é um drama eu estar falando disso, é um drama eu pensar em falar disso, outro drama o jeito como eu coloco os meus próprios dramas. Uma chatice para qualquer bloco de gelo). Sabe, eu odeio. E me sinto culpada por odiar. Por que eu deveria de ser bem mais zen, light, diet, descolada de mente aberta, mística de bons fluídos. Mas sim, a tua touca vermelha me irrita, a tua falta de tudo me irrita, mesmo estudando na melhor universidade do país, na dignidade de ser letrado, meu deus você escreve inhaí! Péssimo. Você que segue a tendência. Você, que ta sempre certo. Um plágio mal feito. Um livro pela capa, milhões de livros pela capa. Toda a tua história em três segundos. Péssima pose de cool, mostrar o que não é. Toda essa tua indiferença, mata qualquer ser-vivo, e junto com ele todas as coisas boas. Péssimo criar um perfil, quantos perfis na internet você é na vida? Vocês são todas essas propagandas da TV. Vocês são uma rua suja de panfletos. Você é todo mundo, sem rosto. Sim, minha intenção é colocar os bofes pra fora sem grandes compromissos com a boa política da educação. Minha intenção é cortar todos vocês no meio, pra dar mais cor à minha fama de psicótica e infeliz. Eu quero inventar uma historinha pra me disfarçar. Todos os meus mil defeitos, perversos defeitos. O meu ciúme, a minha loucura. Os meus olhos azuis não são um rótulo, são realmente azuis. Eles não são um prêmio, doem na claridade. A minha vida toda até agora, que vocês imaginam que conhecem. Todas as vezes que você me subestimou. Eu quero vomitar tudo. Eu quero sacudir pra me livrar da poeira. Eu quero voltar a escrever qualquer besteira. Eu quero que as pessoas que me cruzam na rua se fodam, é pra elas que eu escrevo. Eu não quero mais adivinhar. Eu quero engolir essa raiva do mundo como um bolo de pêlos. Eu queria sempre o mesmo rosto. Não é você, é todo mundo. Sou eu.
Passou. Vou ajeitar os ponteiros do relógio que eu ganhei.
Tudo vai bem – grita O Deus com sua voz penetrante como ferrugem de três mil anos.

segunda-feira

"Ao modo de Chico Alvim..."

Você já reparou nos olhos dela?

São assim
de cigana oblíqua
e dissimulada

Já reparou pra onde ela caminha?
Como ela dobra o joelho em cada passo descompasso
Suspira?

Já reparou que ela vem afoita em passes de break ?
é na minha direção, rente nos meus olhos

na linha do meu queixo
Já reparou?

Já percebeu que a poesia muda?
Muda, as vezes não diz nada.

quinta-feira

Quero te falar do meu amor louco sem uma palavra.
Como todos os olhares de ternura que a gente ainda vai trocar. No almoço, na cama, no parque, no cinema...na vida.

terça-feira

Acho que perdi o jeito, esse espaço em branco na minha frente e um medo indescritível de preenchê-lo. A garganta em nó, o peito em nó, as mãos suadas de quem é consumido aos poucos, como Prometeu e seus 30 mil anos acorrentado em si mesmo, e o abutre como um santo, todos os dias lhe comia o fígado ...esperança e castigo.
Hoje de manhã com a boca cheia de creme dental, me vendo no espelho eu pensei: quando foi que me engoli, que não percebi? Me achei tão linda e interessante, dei um preço alto pra cada traço, pra cada vírgula que eu carrego comigo, para o amor que eu ainda tenho dentro de mim, e sorri sacana de canto, porque isso ninguém pode ter, ninguém pode tirar. Caminhei até o ponto de ônibus inatingível ouvindo Rolling Stones, olhei bem para todas as pessoas, eu queria identificar, eu queria que elas me dissessem alguma coisa, algum segredo, algum pecado ...algum amor, eu queria que elas ouvissem a minha música. Eu queria ser imortal como Prometeu acorrentado. Não sei mais se quero me mostrar.

segunda-feira

LADY LAZARUS



Tentei outra vez.
Um ano em cada dez
Eu dou um jeito —

Um tipo de milagre ambulante, minha pele
Brilha feito abajur nazista,
Meu pé direito

Peso de papel,
Meu rosto inexpressivo, fino
Linho judeu.

Dispa o pano
Oh, meu inimigo.
Eu te aterrorizo?

O nariz, as covas dos olhos, a dentadura toda?
O hálito amargo
Desaparece num dia.

Em muito breve a carne
Que a caverna carcomeu vai estar
Em casa, em mim.

E eu uma mulher sempre sorrindo.
Tenho apenas trinta anos.
E como o gato, nove vidas para morrer.

Esta é a Número Três.
Que besteira
Aniquilar-se a cada década.

Um milhão de filamentos.
A multidão, comendo amendoim,
Se aglomera para ver

Desenfaixarem minhas mãos e pés —
O grande striptease.
Senhoras e senhores,

Eis minhas mãos
Meus joelhos.
Posso ser só pele e osso,

No entanto sou a mesma, idêntica mulher.
Tinha dez anos na primeira vez.
Foi acidente.

Na segunda quis
Ir até o fim e nunca mais voltar.
Oscilei, fechada

Como uma concha do mar.
Tiveram que chamar e chamar
E tirar os vermes de mim como pérolas grudentas.

Morrer
É uma arte, como tudo o mais.
Nisso sou excepcional.

Desse jeito faço parecer infernal.
Desse jeito faço parecer real.
Vão dizer que tenho vocação.

E muito fácil fazer isso numa cela.
É muito fácil fazer isso e ficar nela.
É o teatral

Regresso em plena luz do sol
Ao mesmo local, ao mesmo rosto, ao mesmo grito
Aflito e brutal:

"Milagre!"
Que me deixa mal.
Há um preço

Para olhar minhas cicatrizes, há um preço
Para ouvir meu coração —
Ele bate, afinal.

E há um preço, um preço muito alto
Para cada palavra ou cada toque
Ou mancha de sangue

Ou um pedaço de meu cabelo ou de minhas roupas.
E aí, Herr Doktor.
E aí, Herr Inimigo.

Sou sua obra-prima,
Sou seu tesouro,
O bebê de ouro puro

Que se funde num grito.
Me viro e carbonizo.
Não pense que subestimo sua grande preocupação.

Cinza, cinza —
Você fuça e atiça.
Carne, osso, não há mais nada ali —

Barra de sabão,
Anel de casamento,
Obturação de ouro.

Herr Deus, Herr Lúcifer
Cuidado.
Cuidado.

Saída das cinzas
Me levanto com meu cabelo ruivo
E devoro homens como ar.

sexta-feira

Conto erótico:

- Abocanhada!
menina é um doce te amar...

quarta-feira

Minhas moléculas em desespero, uma fodendo a outra.
Em dias férteis me sinto moralmente inferior.

(Só penso no enlace quente das tuas pernas, e nas serpentes que se transformam os teus cachos)

quinta-feira

History

..................... ........... Foto: Thaís Verônica Lima


" How does one raise a finger, to save a suicide? "

terça-feira

Arame-farpado disfarçado de flor.